domingo, 27 de outubro de 2013



ANTONIO CHIMANGO, POEMETO CAMPESTRE

Toda cópia de qualquer texto ou imagem de meus  blogs solicitar autorização através do email - darisimi@gmail.com. LEI Nº 9.610 de Fevereiro de 1998, que regulamenta os direitos autorais.

Série:  Poetas do Passado Rio-Grandense

Pesquisa:  Dari José Simi
Capa da 1ª edição, 1915
O desenho  é de autoria de Amaro Juvenal




Poema satírico publicado em 1915 pelo médico, jornalista e político gaúcho Ramiro Fortes de Barcellos (1851-1916), sob o pseudônimo de Amaro Juvenal.
Antonio Chimango satiriza a figura do poderoso governador do Rio Grande do Sul, Antônio Augusto Borges de Medeiros, representado em gravura  de capa do livreto por uma ave de rapina, o chimango (Milvago chimango). Essa ave habita o sul do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile.
O poemeto campestre, como o chamou seu autor, foi impresso em uma tipografia da cidade de Pelotas (Officina a Vapor no Parque de Pelotas) e distribuído clandestinamente em várias edições.  Hoje contam-se mais de vinte edições da obra que mudou os rumos da história em seu contexto sócio-político de inícios do século XX.
O episódio político que deu origem ao Antonio Chimango teve lugar em 1915, durante o segundo governo de Borges de Medeiros, primo de Ramiro Fortes de Barcellos.


Antonio Augusto Borges de Medeiros

Houve, naquela ocasião, uma dissidência no Partido Republicano Rio-Grandense, do qual Borges de Medeiros era o chefe unipessoal, acumulando essas funções com a presidência do Estado.
Causa da dissidência: a indicação do marechal Hermes da Fonseca, que deixara a presidência da República coberto de aleivosias, para ocupar, no Senado, a vaga então aberta na representação do Rio Grande do Sul.
A indicação fora feita por Pinheiro Machado e logo aceita por Borges de Medeiros.
Houve membros do Partido Republicano Rio-Grandense que não concordaram com essa candidatura, entre os quais Ramiro Barcelos, que também pretendia o cargo de Senador, ocorrendo, então, a dissidência partidária  que, por sua vez, daria lugar ao aparecimento do “Antonio Chimango”.
Para escrever a sua obra imortal, Ramiro Barcellos adotou o estilo literário do “Martin Fierro”, de José Hernández e do “Santos Vega, el payador”, de Hilario Ascasubi, obras consagradas do regionalismo argentino.


















Maria Helena Martins escreve que o poema “mostra um ângulo peculiar do gaúcho e do seu contexto vivencial, através de um espírito crítico, amargo mas humorado, que lhe valeu a caracterização de “poema satírico” ou “sátira política”.  Para o público sul-rio-grandense das primeiras décadas deste século (século XX), seria transparente tratar-se da caricatura de um período político e de seu expoente no governo Borges de Medeiros.”





 “Antonio Chimango é um poema narrativo, composto de cinco  cantos (rondas, para o autor), num total de 1278 versos, dispostos em sextilhas. Cada ronda contém duas partes, apresentando episódios diversificados e mais ou menos independentes, mas cuja inter-relação levará a compreender a obra de modo efetivo. Em cada ronda, a parte inicial gira em torno de paisagem  e do homem da Campanha, em sua lida diária, bem configurada na caracterização da personagem Lautério. E este velho tropeiro cantador se torna elemento de ligação, pois na parte final de cada ronda, é quem relata a trajetória – do obscuro nascimento à conquista do poder – de “um tal Antônio, Chimango por sobrenome”. (Maria Helena Martins – “Agonia do Heroísmo, contexto e trajetória de Antonio Chimango”. Porto Alegre:Editora da UFRGS; L&PM, 1980, p. 31)


Ramiro Fortes de Barcellos
 (Foto do Museu Municipal de Cachoeira do Sul)



























Natural de Cachoeira do Sul, RS, onde nasceu a 23 de agosto de 1851 e faleceu em Porto Alegre a 28 de janeiro de 1916. Era filho de Vicente Loreto de Barcellos e Idalina Pereira Fortes. Médico formado pela Escola de Medicina do Rio de Janeiro;  foi Ministro Plenipotenciário do Brasil na República do Uruguai;  Secretário da Fazenda e   Deputado Provincial do Rio Grande do Sul ; Senador da República pelo Estado do Rio Grande do Sul.
Segundo pesquisas de Guilhermino Cesar nas coleções da Biblioteca Rio-Grandense, da cidade de Rio Grande, "já em 1882, quando fundou com Graciano Alves de Azambuja o jornal O Novo Mundo, de vida efêmera, adotava Ramiro Barcellos o pseudônimo de Amaro Juvenal. Em 6 de janeiro de 1883, no quinto número da mesma folha, publicou o folhetim Único, onde satiriza  a incontinência  do Imperador na concessão de títulos nobiliárquicos.  E no primeiro número de A Federação , que é de 1º de janeiro de 1884, publicou com o mesmo pseudônimo a famosa Carta a D. Isabel. (V. Guilhermino Cesar, O outro Amaro Juvenal, in Suplemento Literário do Diário de Notícias, de 29 de junho de 1958). 
Mais tarde, quando do seu rompimento com o chefe do partido a propósito da candidatura de Hermes da Fonseca, ele mesmo se refere ao Amaro Juvenal que assinava artigos de aguda mordacidade, mas desta vez para comunicar que o adversário terá sua biografia traçada pelo mesmo satirista.  Observa então em artigo publicado no Correio do Povo de agosto de 1915, sob o título Comentários políticos: “Na campanha a que me atirei, na nobre tentativa de salvar por um protesto solene a honorabilidade de nossa terra natal, opus-me à vontade do Sr. Borges de Medeiros, mas não o insultei, não o injuriei, não o enxovalhei, não ataquei a sua honra pessoal. S. Exc.ª, incapaz de defender com argumentos o atentado político a que ligou a sua responsabilidade , vem agredir-me pessoalmente pelas colunas da Federação. Pois terá o troco que merece, na altura de sua agressão. E vai lucrar muito com isso, porque terá a sua biografia política escrita por um contemporâneo desde o tempo da propaganda e que lhe ficou bem conhecido o valor, desde a passagem de um certo telegrama a Julio de Castilhos, logo após o golpe de Estado do Sr. Lucena. Essa biografia, porém será escrita por Amaro Juvenal, porque o assunto dá para tirar conclusões alegres de episódios tristes.” (Amaro Juvenal – Antonio Chimango, poemeto campestre. Porto Alegre:Editora Globo, 1961, p.117).
                                             


                                            
                                                Auto-retrato de Ramiro Barcellos


Capa da 2ª edição, que foi publicada somente em 1923.
A capa conservou-se a mesma da 1ª edição de 1915

O autor de Antonio Chimango















Folha de rosto da edição de 1932
(5ª edição do Antonio Chimango)
com a continuação feita por Juvenal,
o moço (Homero Prates)




A 3ª edição do poemeto foi publicada em Porto Alegre em 1925 por Amaro Juvenal e sem folha de rosto como a 1ª e 2ª edições.
 A edição feita por Arnaldo Melo, 4ª edição do Antonio Chimango, publicada em Santa Maria, sem folha de rosto, traz  no final do poema a seguinte nota: “A continuação desta história o leitor a encontrará no livro A História de D. Chimango, por Homero Prates”.

Capa da 5ª edição, 1932, de Homero Prates












TIO LAUTÉRIO

O narrador do poema Antônio Chimango é o Tio Lautério:

E puxando  o barbicacho
Pondo o chapéu na nuca,
Como quem sente a mutuca,
Levantou-se o tio Lautério,
Mulato velho mui sério,
Cria de dona Maruca.

Foi logo direito aos troços,
Trouxe de lá o instormento,
Ficou pensando um momento,
E, se aprumando direito,
O Lautério abriu o peito
E assim cantou ao relento.

Para les contar a vida
Saco da mala o bandônio,
A vida de um tal Antônio
Chimango – por sobrenome,
Magro como lobisome,
Mesquinho como o demônio.
O outro personagem é o Antônio Chimango, alcunha de Borges de Medeiros, então presidente do Estado do Rio Grande do Sul.
Tio Lautério existiu mesmo, chamava-se Eleutério Faria. Viveu pelas fazendas da família Borges Faria de São Sepé – propriedades de Matheus Faria, Afonso Faria e filhos, de quem Ramiro Barcelos era grande amigo.
Eleutério nasceu em 1854 e faleceu em 1942, em São Sepé, RS, onde sempre viveu. Fora escravo e depois, liberto, como peão de estância. Conheceu como poucos todas as lides campeiras.
Tio Lautério era “mulato mui sério. Cria de Dona Maruca.” Esta era esposa do capitão Afonso Faria e se chamava Maria Joaquina Borges Faria.  Era a mãe de criação de Tio Lautério.

O Lautério era um mulato mui prosa e muito viajou com Ramiro Barcelos, amigo de seus patrões, em suas andanças políticas.  Mais tarde Ramiro Barcelos escreveu  em trovas os versos do Antônio Chimango,  tendo por personagem-narrador o Tio Lautério. Eleutério mereceu tal escolha. Era homem capaz de todas as proezas que o poema narra com um colorido somente comparável às sextilhas de Martin Fierro. (J. Patrocínio Motta. Tio Lautério, o mito e a realidade. Correio do Povo, Caderno de Sábado, 18 e 25 de janeiro de 1969).






























                                                                                        
Folha de rosto da  3ª edição da Editora Globo, 1961

Edição de Artes e Ofícios, 2000
Edição de Martins Livreiro - 1978




EDIÇÕES DO ANTONIO CHIMANGO, DE RAMIRO BARCELLOS

1915 -1ª - Feita por Amaro Juvenal (Ramiro Fortes de Barcellos), publicada em Pelotas, 1915
1923 -2ª - Publicado por Fernando Barreto, do jornal  Última Hora, 1923 com data de 1915.
1925 - 3ª - Traz na capa Livraria Positivista, Editora Rua da Igreja, Porto Alegre, 1925.
1929 - 4ª - De Arnaldo Melo, Correio da Serra, Santa Maria, 1929.
1932 - 5ª -  "Antonio Chimango e sua continuação", Schmidt Editor,RJ, 1932
1946 - 6ª - Da revista Província de São Pedro, nº6, Editora Globo, Porto Alegre, 1946.
1951 - 7ª - Da revista Erechim, do nº 2 em diante, Erechim, RS, 1951.
1952 - 8ª - Da Editora Globo (Coleção Província), Porto Alegre, em 3 edições: 1952/1957/1961.
S/d    -  Edição da revista Horizonte, Porto Alegre.
1965 - Almanaque do Correio do Povo, Porto Alegre, 1965, entre as páginas 242 e 257.
1978  - 21ª edição - Martins Livreiro, Porto Alegre, 1978.
1982 - De Martins Livreiro.
1986 - De Martins Livreiro
1998 - 25ª edição - Martins Livreiro, 1998
1999 - Editora Mercado Aberto
2000 - Da editora Artes & Ofícios, Porto Alegre, 2000.
Em italiano: Com o pseudônimo de "Menego dal Mánega", o  Monsenhor Dr. João Maria Balém traduziu o Antonio Chimango para o dialeto vêneto.

O poema de Ramiro Barcellos provocou várias imitações:

 Waldemar Corrêa  sob o pseudônimo de Dino Desidério publicou "A volta de Antonio Chimango, poemeto gauchesco", 1935;



 Homero Mena Barreto Prates sob o pseudônimo de Juvenal, o moço, publicou Antonio chimango e sua continuação. Rio de Janeiro: Schmidt Editor, 1932. É a 5ª edição, relacionada acima.

Zeca Blau - Trovas da estância do abandono de Da. Brasilia Comarca. Cantadas por Zeca Blau (José Figueiredo Pinto - Tupanciretã, RS, 22.7.1899; Santiago, RS, 6.12.1974). São Pedro, RS: Ed. da Tip. de O Comércio, 1933, 87p.   A 2ª edição saiu pela Editora Grafipel em 1959; 3ª edição, 2013, Editora Pallotti.





OBRAS SOBRE O ANTONIO CHIMANGO  E SEU AUTOR


Mayer, Augusto - Prosa dos pagos. 1ª ed., Rio de Janeiro:Livraria Martins Editora, 1943. Já foram tiradas 4 edições:2ª ed., 1960, Rio de Janeiro:Livraria São José, 1960; 3ª ed., Rio de Janeiro:Presença Edições/INL-MEC, 1980; 4ª ed., Porto Alegre:Instituto Estadual do Livro:Corag, 2002.

Martins, Maria Helena - A agonia do heroísmo, contexto e trajetória de Antonio Chimango. Porto Alegre:Ed. UFRGS; L&PM, 1980, 182p. 
Traz extensa bibliografia sobre Antonio Chimango e seu autor. A maior parte publicada em periódicos.

Medeiros, Pedro Paulo - Para meus netos compreenderem Antonio Chimango. Santa Maria:UFSM, 1985.

Pires, Ary Simões - Um gaúcho sepeense: tio Lautério.  Santa Maria:Palotti, 1957.

Porto Alegre, Aquiles - Homens Ilustres do Rio Grande do Sul. Porto Alegre:Livraria Selbach.

Rabuske, Arthur - O gaúcho Martin Fierro e Antônio Chimango.  Separata da revista "Estudos Leopoldenses", nº 39, São Leopoldo:Instituto Anchietano, 1976.

LP "Antônio Chimango - poemeto campestre". Música de Martin Coplas e texto de Ramiro Fortes de Barcellos. Stereo. Cantares Discos do Brasil, 1982.