sexta-feira, 20 de abril de 2018



Honório Lemes da Silva,

O Leão do Caverá


Dia 13 deste mês de abril o jornal semanário canoense “O timoneiro” divulgou mais um artigo do meu amigo Olegar Lopes, responsável pela coluna “Agenda Tradicionalista”. Desta feita Olegar trouxe mais um tema importante da nossa história político/militar, o caudilhismo. Os caudilhos eram indivíduos influentes em uma determinada região e até em todo o Estado. Geralmente estancieiros ou fazendeiros. Nem todos os caudilhos eram homens ricos. Também na Argentina e Uruguai o caudilhismo teve grande influência nos rumos da política e nas revoluções internas ou guerras de fronteiras.
Aproveito o momento para divulgar um resumo do texto que venho desenvolvendo sobre o grande caudilho Honório Lemes, o “Leão do Caverá”, título que lhe foi dado em função do grande conhecimento que tinha da Serra do Caverá, situada entre os municípios de Rosário do Sul e Alegrete.
Estive há pouco tempo na cidade de Rosário do Sul, onde estão sepultados os restos mortais de Honório Lemes.
Honório Lemes nasceu em Cachoeira do Sul em 23 de setembro de 1864 e morreu em Santana do Livramento em 30 de setembro de 1930. Ingressou como simples soldado nas fileiras revolucionárias, chegando ao posto de coronel, mais tarde, o de general. Sem grandes posses materiais e com pouca instrução, participou da Revolução Federalista de 1893 a 1895, voltou às armas, desta feita contra Borges de Medeiros, outro caudilho, liderando os maragatos na região oeste do Estado do Rio Grande do Sul, tendo como base a Serra do Caverá, que foi o santuário do caudilho, e justamente apelidado de “O Leão do Caverá” e “Tropeiro da Liberdade”.
Em 1924, apoiou a sublevação tenentista nos quartéis do exército no interior do Rio Grande do Sul, entre eles a da guarnição de Santo Ângelo, liderada por Luís Carlos Prestes. O Tropeiro da Liberdade, Honório Lemes, em sua poesia “O Testamento”, escreveu a certa altura: “Se pretendem me entregar a minha cortante espada podem dar ao camarada General Flores da Cunha que me pegou quase a unha e não quis me fazer nada.”
“Em todos os partidos há homens bons e maus. Os bons são em maior número, mas os maus são mais audaciosos e por isso andam sempre na frente, sendo necessário cortar-lhes a ação...”.
Honório Lemes terminou seus dias como posteiro na Estância Santa Ambrozina, em Rosário do Sul. Quando sentiu-se doente foi levado para o distrito de Pampeiro, em Livramento, para a residência de seu sogro Fulgêncio Silveira, onde veio morrer. Seu corpo foi levado para sepultamento em Rosário do Sul, cidade onde residiu por muito tempo.
Honório Lemes, chefe militar da Revolução de 1923


Honório Lemes e seus oficiais, 1923

Chefe do Estado-Maior Libertador,
 General Honório Lemes, em Dom Pedrito, 1923


Da esquerda - Mena Barreto, Batista Luzardo, 
Leonel da Rocha, ´Honório Lemes, Assis Brazil, Cel. Setembrino de Carvalho,
 Pinheiro Machado, Gal. Zeca Netto, Gal. Felipe Portinho e Estácio Azambuja  


Honório Lemes


Honório Lemes com grupo de oficiais


Honório Lemes, Zeca Netto, Estácio Azambuja, Felipe Portinho, entre outros

Honório Lemes da Silva

Placa no monumento a Honório Lemes, em Rosário do Sul, RS

Monumento a Honório Lemes em Rosário do Sul, RS



Capa do livro - Honório Lemes, um líder carismático

sábado, 14 de abril de 2018




ALDO CHIAPPE


Parecem fotografias, tal a perfeição de detalhes deste artista plástico argentino.
Aldo Chiappe, es un artista cuya obra gira en torno a la naturaleza, el campo y los gauchos de su tierra. Las vastas extensiones de la Pampa argentina y la vida solitaria de jinetes y troperos, así como los animales que pueblan paisaje, plasmados con cuidado detalle, demostrando una aguda observación y profundo conocimiento del entorno. 



















BOLEADEIRAS
Entre tantos outros temas ligados ao gaúcho, que divulguei pela internet, ofereço mais este aos amigos. Meu interesse é fazer conhecida e vulgarizada nossa rica cultura terrunha.
Há mais de 12.000 anos chegaram os primeiros povos indígenas ao território pampeano e aqui construíram suas habitações e seus instrumentos  para suprir a alimentação, que era a base de coleta de frutas, raízes, peixes e todo tipo de caça. Para tanto, desenvolveram instrumentos que facilitaram a vida difícil daqueles tempos imemoriais.  Pontas de projéteis que constituíam os dardos, lanças e flechas, e também as boleadeiras. Eram bolas redondas ou ovóides, lisas ou com um sulco, ou ainda, com pontas. Os pampeanos usaram dois tipos bem diferentes de boleadeiras, de uma e duas bolas. A de três bolas foi construída pelos primeiros gaúchos. A boleadeira, uma espécie de funda, foi também uma arma muito utilizada pelo gaúcho para caçar nas grandes pradarias do pampa Riograndense, Uruguai e Argentina. A boleadeira é composta de bolas metálicas ou pedras arredondadas amarradas entre si por cordas tendo em cada uma das extremidades uma das bolas.

Lançadas girando sobre si, elas vão ao encontro do alvo, geralmente as pernas de um animal quadrúpede, que leva um tombo na hora, ficando imobilizado. Usada normalmente na captura do gado na campanha, as boleadeiras também foram mais tarde utilizadas na guerra.

A boleadeira é a herança que as tribos da região do Plata deixaram aos gaúchos. Arma característica dos índios Guaranis, Charruas, Minuanos e outros que viviam nos pampas, quando aqui chegaram os primeiros europeus. Entre todos os utensílios de caça e/ou armas utilizados pelos gaúchos, nenhum é mais característico e mais peculiar que a boleadeira.
Os espanhóis, e os europeus em geral, desconheciam totalmente o uso da boleadeira ao iniciar a conquista do continente americano.




TRÊS MARIAS - Jayme Caetano Braun

 Velha relíquia gaúcha, De pedras acolheradas, Três chinocas encapadas, Que rasgando um mundo novo, Perpetuaram no retovo, E nas cordas resistentes, As três raças diferentes, Que formaram nosso povo.
Retovada em couro bruto, Nas tabas e tolderias, Nascestes das correrias, De charruas e minuanos, Até que os rudes paisanos, Aprenderam a manejar-te, Te fizeram nobre parte, Dos apetrechos pampeanos. 
Daí  seguiste andarenga, A evolução campesina, Nas lutas da Cisplatina, Nas invasões espanholas, Onde caudilhos pacholas, No fragor das tropelias, Te chamaram Três Marias, Boleadeiras ou par de bolas.
Diz a lenda- que um cacique, Ao voltar de uma peleia, Vendo perto a lua cheia, Que se destapava inteira, Na ingenuidade  campeira, Da superstição charrua, Resolveu domar a lua E atirou-lhe a boleadeira.
Desde então- no céu do pago, Daquelas pedras bravias, Surgiram as Três Marias, No meio dum fogaréu,  tropereando a lo léo, Sempre no rastro da lua, A boleadeira charrua, Nunca mais voltou do céu. 
Essa é a lenda – Mas a história, Desse traste de galpão, É a da própria tradição, Das três pátrias campechanas, As três Querências Hermanas, Traços do mesmo debuxo, Que moldaram o gaúcho, Nas pampas americanas. 
Boleadeira de uma pedra, E mais adeante, de duas, Três Marias dos Charruas, Dos andejos e teatinos, Riograndenses e Platinos, Centauros da mesma glória, Que amanheceram, na história, Boleando os mesmos destinos.
Boleadeira do Rio Grande, Que recebemos de herança, Volto aos tempos de criança, E até lágrimas enxugo,
Tropeio- Aparto- Refugo, Na sombra do arvoredo, Onde conheci o segredo, Das três pedras de sabugo. 
Muitas vezes te larguei. Saindo meio de enfiada, No rei pastor da manada, Bem sobre o meio da cruz, Ou num lombo de avestruz. Desses que sai corcoveando, Pra rodar se desasando, Num campo de tacurus.
Mas hoje- eu compreendo, ao ver-te, Dependurada num gancho, Olhando a porta do rancho, E ouvindo o berro dos bois, Que já não temos depois, Chegamos ao fim da lida: -Boleamos tanto na vida e a vida boleou nós dois.
Foto do acervo de Dari Simi

Índios charruas levados a Paris em 1823.
Desenho de Paul Rivet

Boleando ñandus (emas). 
Aquarela de A. Durand, 1866.



Índios charruas civilizados, peões. 
De Jean Baptiste Debret















domingo, 8 de abril de 2018



CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE HUGO SIMÕES LAGRANHA




Quadro no Museu Municipal
 Hugo Simões Lagranha



Pesquisa de Dari José Simi  em 8.4.2018 


No dia 9 de abril de 2018 Canoas comemora o centenário de nascimento de um dos seus mais ilustres prefeitos, Hugo Simões Lagranha. Não podíamos deixar passar em branco essa data sem fazermos uma alusão ao evento, divulgando uma síntese biográfica de Lagranha.
Nasceu no dia 9 de abril do ano de 1918 no Município de Alegrete, RS, e faleceu em Porto Alegre no dia 15 de abril de 2005, quando já completara 88 anos de idade.  Eram seus pais  João José Lagranha e  Lucília Simões Lagranha.
Seus primeiros anos de estudos foram completados na sua cidade natal do Alegrete. Em Porto Alegre freqüentou o Colégio Militar, onde concluiu os cursos de formação militar e o de topografia. Fez, ainda, um curso Pré-Jurídico e outro de Contabilidade. Em 1965 fez um curso de administrador.
Iniciou suas atividades profissionais em 1941, quando passou no concurso para fiscal do IVC, hoje ICMS.
Mas é na política que Lagranha se realiza, passando grande parte de sua vida exercendo cargos administrativos. Em 1956 foi vice-prefeito de Canoas, na gestão de Sezefredo Azambuja Vieira, até o ano de 1959. De 1964 a 1967  Lagranha exerceu o cargo de prefeito de Canoas, tendo sido eleito pela coligação PSD,PL,PRP e UDN, com prorrogação até 1968, ano em que foi nomeado prefeito municipal de Canoas, pelo governador do Estado, Walter Peracchi Barcellos, até o ano de 1971. Era o período da ditadura militar no Brasil e Canoas passou a ser área de segurança nacional.  Lagranha passou, ainda,  por um período, a partir de 1973, na Câmara de Vereadores de Canoas. Em 26 de julho de 1983, por ato do governador Jair Soares, foi novamente nomeado e empossado prefeito municipal de Canoas e, em 12 de novembro de 1984, é exonerado pelo mesmo governador.
Em 15 de novembro de 1988, Lagranha volta a ser eleito prefeito municipal de Canoas, pela coligação PDT e PSDB, pela expressiva soma de 64.809 votos. Exerce o mandato de 1 de janeiro de 1989 até 31 de dezembro de 1992.  O novo prefeito eleito foi Liberty Conter, que o nomeia secretário de Obras Públicas.
Nas eleições de 1994, Lagranha concorre ao cargo de Deputado Federal pelo PTB, tendo sido eleito por 71.599 votos. Exerce o cargo de 1 de janeiro de 1995 até 31 de dezembro de 1996, quando renuncia para concorrer às eleições de prefeito de Canoas e foi eleito com 85.000 votos. Este foi o 5º e último mandato de prefeito de Lagranha.
Exerceu também diversas atividades de gerência ou assistência administrativa em muitas empresas de Canoas e cidades vizinhas. Teve expressiva atuação em clubes e entidades assistenciais de Canoas. Foi presidente do Hospital Nossa Senhora das Graças de 1946 a 1962.

O ano de nascimento de Lagranha foi 1918 
e não 1917 como consta no cartaz.

Lagranha entrega premiação. Foto de 1968

Inauguração da Escola Estadual João XXII, em 26.6.1970, 
com o governador Peracchi Barcelos.

Inauguração da E.E. André Leão Puente, em 26.6.1970, 
com o governador Peracchi Barcellos.

Lagranha entrega livros no Grupo Escolar Canoas, em 1969.

Lagranha entrega livros no Grupo Escolar Castelo Branco, 
Bairro Igara, em 1969.

Livros - História de Nossos Prefeitos - Série Documento, volumes 7 e 8. 
Participei da pesquisa e elaboração dos dois períodos 
 históricos e dos atos do prefeito Lagranha .

Livro de Miriam Kinczel de Oliveira

terça-feira, 3 de abril de 2018



O GAÚCHO (OU GAUCH0) - II

Texto elaborado por Dari José Simi

Descendente dos conquistadores ibéricos em linha direta ou cruza com os ameríndios que habitavam a região do pampa: charruas, chanás, guenoas, yaros e minuanos. Afastado dos incipientes vilarejos, o gaúcho saiu em busca do gado selvagem, arbitrariamente, e muitas vezes, à margem das leis sancionadas pela civilização.
Como tipo estratificado, quem primeiro registrou a presença dos gaudérios foi Hernandárias de Saavedra (Hernan Arias de Saavedra, 1564-1634), quando, nos primeiros anos do século XVII, relatou que surpreendera em terras santafesinas “gente perdida que tenia librado su sustento en el  campo”.
No Uruguai e no sul do Rio Grande do Sul, o gaúcho começou a ser observado antes da fundação e dos primeiros momentos da Colônia do Santíssimo Sacramento (1680).  Eles se agrupavam ou se isolavam para sair a caça dos bovinos e cavalares, reiúnos ou das estâncias missioneiras, para comercializar esses e seus subprodutos com Buenos Aires e com os tropeiros luso-brasileiros que demandavam às regiões mineradoras do Brasil, as  Minas Gerais.
No final do século XVI e início do XVII, há registro de que o português Gonzalo Afonso havia aceitado para alguns trabalhos temporários, em sua colônia de Santo Amaro (no atual Rio Grande do Sul), alguns mestiços com as características dos primeiros gaudérios.  Talvez seriam migrantes da tribo dos índios patos (daí o nome da Lagoa dos Patos) e, portanto,  produtos de cruzamento racial.
Na Argentina os gaúchos começaram a ser discriminados ao redor de 1750.  Seu nomadismo e a pouca afeição ao convencional fizeram com que fossem hostilizados e mantidos prudentemente afastados do convívio dos colonos que viviam nas proximidades de Buenos Aires.
O grande  clássico argentino,  Martin Fierro, resgata a figura humana dos campeiros, numa imortal sátira escrita por José Hernandez, na década de 1870.
A integração do gaúcho à vida nacional dos três países da região pampiana começou de forma lenta e gradual, coincidindo com o período de suas independências do domínio ibérico.
No aspecto sócio/militar, vamos encontrar o gaúcho como parte integrante de todos os movimentos que convulsionaram a Argentina, o Brasil meridional e o Uruguai, desde as últimas décadas do século XVIII.
No Uruguai, formaram a base do exército que garantiu para o grande caudilho nacional, General Artigas, a segurança do épico, nos primeiros tempos das lutas pela criação de um Estado independente, que ficou conhecido como o “êxodo do povo oriental”.
No Rio Grande do Sul, serviram como núcleo de cavalaria real e imperial e durante o decênio heróico da Revolução Farroupilha foram temidos pelos adversários e louvados por seus comandantes.
Na Argentina, significativos contingentes foram utilizados no exército nacional, nas campanhas de alargamento das fronteiras internas, nas guerras do ditador Rosas e por todas as facções políticas que se digladiaram nos primeiros anos da jovem república.
Por ocasião da Guerras da Tríplice Aliança (Guerra do Paraguai), o General Urquiza cedeu “10.000 homens da sua cavalaria gaucha de seu exército particular”, para o comando direto do Presidente Mitre, na composição das forças aliadas.

Índios charruas

Foto do início do século XX

Festa campeira. Cartão postal da Argentina, 1911


Cartão postal de 1924

Gaucho da Argentina. Foto de 1868


Fazendeiro. Foto inícios do século XX


Foto do início do século XX

Prisioneiros. Foto original no 
Museo de Lujan, Buenos Aires 





Capa do livro de Manoel Faria Correa

Mulheres usando arreio celim, cerca de 1911. 
Foto Museu Histórico de Caxias do Sul.

Foto de Samuel Boote


Capa da revista Vida Doméstica, de 1935.
General Bento Gonçalves e 
General José Antônio Flores da Cunha




Rafael Pinto Bandeira
Foto de um camafeu feito em Portugal.
Única imagem conhecida de Rafael



Gaúcho primitivo